Um tratamento usado para combater uma infecção fúngica fatal em anfíbios pode trazer um efeito colateral importante para a reprodução. Um novo estudo indica que a terapia térmica, aplicada para eliminar o fungo causador da quitridiomicose, esteve associada a uma redução significativa na concentração de espermatozoides em sapos ameaçados.

A pesquisa analisou machos da espécie Ranoidea aurea, conhecida como rã-verde-e-dourada, e reforça a necessidade de avaliar não apenas a sobrevivência dos animais após o tratamento, mas também possíveis impactos sobre sua capacidade reprodutiva.

Fungo está ligado ao declínio de anfíbios

O fungo Batrachochytrium dendrobatidis, frequentemente identificado pela sigla Bd, é um dos principais agentes associados ao declínio de populações de anfíbios em diferentes partes do mundo.

A infecção atinge a pele dos animais e pode interferir no equilíbrio de eletrólitos do organismo. Em casos graves, as alterações fisiológicas podem ser fatais. Diante desse risco, cientistas e programas de conservação utilizam diferentes estratégias para combater a doença, incluindo medicamentos antifúngicos e exposição controlada ao calor.

Como funciona a terapia térmica?

O tratamento aproveita a sensibilidade do fungo a temperaturas elevadas. No experimento, os pesquisadores aumentaram gradualmente a temperatura do ambiente onde os sapos eram mantidos, saindo de cerca de 25 °C até chegar a 37 °C por um período controlado.

Após o procedimento, os animais tratados ficaram livres da infecção analisada. No entanto, os pesquisadores identificaram uma possível consequência para a fertilidade dos machos.

Concentração de espermatozoides caiu após o tratamento

Os cientistas avaliaram 13 sapos machos adultos antes e aproximadamente cinco semanas depois da terapia térmica. Os resultados mostraram que a concentração de espermatozoides caiu quase pela metade após o tratamento, independentemente de os animais estarem infectados no início do estudo.

Em parte dos indivíduos avaliados novamente cerca de seis meses depois, a concentração espermática continuava substancialmente menor. Os pesquisadores também observaram alterações na proporção de espermatozoides móveis.

Estudo ainda exige cautela

Os próprios pesquisadores destacam que os resultados são preliminares e não permitem concluir definitivamente que o calor seja o único responsável pelas alterações observadas.

O estudo não contou com um grupo comparativo de sapos que permanecesse sem terapia térmica, não incluiu fêmeas e também não acompanhou diretamente o número de descendentes produzidos pelos machos tratados. Além disso, ainda é necessário investigar se temperaturas diferentes poderiam combater o fungo com menor impacto sobre a reprodução.

Conservação de espécies pode exigir novas estratégias

A descoberta é relevante especialmente para programas de conservação que tratam anfíbios infectados antes de devolvê-los à natureza. Eliminar a doença é essencial para aumentar as chances de sobrevivência, mas uma redução prolongada da fertilidade poderia criar um novo desafio para populações já ameaçadas.

Os resultados não significam que a terapia térmica deva ser abandonada. A principal recomendação é ampliar o monitoramento reprodutivo dos animais tratados e desenvolver novas pesquisas para entender melhor o equilíbrio entre o combate à infecção e a preservação da capacidade de reprodução.

Próximos estudos devem investigar impacto sobre a fertilidade

A pesquisa, publicada no Journal of Experimental Biology, abre caminho para novos testes sobre os efeitos de tratamentos contra doenças em espécies ameaçadas.

Os cientistas deverão investigar se a queda na concentração de espermatozoides é temporária ou persistente, quais temperaturas apresentam menor risco e se outros métodos de combate à quitridiomicose podem proteger os anfíbios sem comprometer sua reprodução.

A questão é especialmente importante para espécies cuja recuperação depende de programas de reprodução e reintrodução. Para esses animais, sobreviver à infecção é apenas uma parte do desafio: manter a capacidade de gerar novas populações também pode ser decisivo para a conservação a longo prazo.

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