‘Cultura de rua é revolução’: pintor brasileiro de ‘hip-hop’ Paulo Nimer Pjota | Arte e design


Paulo Nimer Pjota tinha 15 anos quando vendeu seu primeiro quadro e já era veterano há três anos. “Não sei bem como é a vida sem pintura”, me diz o artista brasileiro de 37 anos. “Está em tudo que faço, nos filmes que assisto, nos livros que leio. Eles podem não ter nada a ver com arte, mas posso encontrar neles algo que posso usar.”

O ateliê de Pjota, que já serviu de dormitório antes de ele se casar e ter um filho, fica em um bairro tranquilo de São Paulo: há estantes forradas de cabaças, caveiras, cartões postais e outras bugigangas, um par de skates pendurados na parede e uma mesa transbordando de tubos de tinta. Uma pilha de esboços que ele fez quando era adolescente, descobertos na casa de seus pais, está no meio dessa bagunça produtiva.

Banquete com Teia de Paulo Nimer Pjota, 2025. Fotografia: Gui Gomes/© Paulo Nimer Pjota cortesia de Maureen Paley London, e Mendes Wood DM, São Paulo

Conversamos por telefone enquanto ele viaja para instalar sua primeira exposição institucional no Reino Unido na South London Gallery. Intitulado Encantados, contará com 11 novas pinturas sobre tela, penduradas sobre um vasto e intricado desenho de parede. As obras esticadas retratam cenas mágicas e fantásticas, a superfície imbuída de uma sensação de brilho em suas camadas de acrílico, óleo e têmpera.

Em uma pintura, borboletas rosadas explodem na barriga de uma mulher; em outro, um macaco remexe uma urna caída. Deuses, peixes e enormes buquês de flores desabrochando são recorrentes. Pjota, vestido com roupas de skate e coberto de tatuagens, compara seu processo ao de um produtor de hip-hop, amostrando imagens e motivos de fontes que incluem civilizações antigas, folclore brasileiro, história da arte, cadernos e literatura infantil.

Paulo Nimer Pjota (terceiro a partir da esquerda), com Maureen Paley, Oliver Evans e Julia Kater em Los Angeles. Fotografia: Kyle Goldberg/BFA.com/Shutterstock

“A mitologia sempre foi interessante para mim”, diz ele. “Histórias que ouvi na casa dos meus pais, na mídia, essas coisas fazem parte da nossa vida desde muito cedo. Ao me tornar pai, comecei a ler muitas fábulas para o meu filho e estava relembrando os desenhos que fazia quando era criança. Animais malucos, natureza antropomorfizada.”

Em The Land Before Time for Jorge, aparecem dois cactos, um chorando, outro rindo, como as máscaras da tragédia grega, exceto que seus rostos têm características de antigos guerreiros japoneses. Pjota diz que a paisagem ao fundo vem de uma pintura do século 15 sobre a invasão colonial das Américas e um casal mal vestido no fundo é tirado de uma tapeçaria francesa. “Fiz esse quadro para meu filho. O título faz referência ao filme, que todo mundo no Brasil assistia quando criança.”

A pintura mural de Londres, que contará com um zoológico de criaturas tocando instrumentos musicais, é um retorno à sua juventude em meio à cena do graffiti e do hip-hop de São José do Rio Prêto, sua cidade natal, no interior de São Paulo. Pjota começou a fazer arte depois de frequentar a escola local de hip-hop, uma espécie de clube social que oferece aulas de breakdance, DJing e grafite em uma cidade conservadora e desprovida de muita diversão cultural.

A Criação do Ouro, de Pjota, 2025. Fotografia: Gui Gomes/© Paulo Nimer Pjota cortesia de Maureen Paley London, e Mendes Wood DM, São Paulo

“Comecei uma equipe com dois amigos e depois comecei outra equipe com os professores da escola. Eu era um garoto de 13 anos pulverizando com esses caras de 25 anos. Foi assim que conheci todos esses grafiteiros famosos: Os Gêmeos, Ise, Nunca. Foi super divertido, super cru, o início do graffiti brasileiro.” Essa primeira venda veio de um projeto comunitário da sede local do PT, o Partido dos Trabalhadores. “Hip-hop e cultura de rua, trata-se de revolução e comunidade.”

Ele se sentiu atraído pelo uso tanto do pincel quanto da lata de spray e desenvolveu um estilo próprio, pintando tanto nas paredes da cidade quanto nas telas de casa. “Eu brinquei com diferentes estilos de graffiti: throw-ups, wildstyle, mas logo comecei a desenvolver uma coisa minha, bem diferente do que estava acontecendo.”

Aos 17 anos mudou-se para São Paulo para fazer faculdade de artes, mas seus amigos ainda eram os caras mais velhos que conheceu nas ruas. “A cena do graffiti era mais difícil aqui. Havia mais policiais, que eram muito mais brutais e eu não era mais uma criança.” Sua primeira exposição na galeria paulista Mendes Wood DM, em 2012, apresentou pinturas muito maiores do que as que ele faz agora, seus motivos como caranguejos, cristais e desenhos anatômicos, igualmente diversos, mas representados flutuantes e discretos uns dos outros em uma superfície monocromática – como se pudessem coexistir em uma parede grafitada. Outros trabalhos foram feitos em chapas de sucata ou tecidos antigos encontrados. Ele diz que há um senso de narrativa mais forte nos trabalhos mais recentes. “Os símbolos se cruzam de uma forma mais sutil”, diz ele. As justaposições não são mais o objetivo do trabalho. “Eles são uma ferramenta para construir um novo universo mítico e fantástico.”

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