Cometa interestelar provavelmente muito mais antigo que o Sistema Solar, dizem astrônomos

PARIS (Reuters) – Um cometa interestelar que passou pelo Sol no ano passado pode ser quase três vezes mais velho que o nosso Sistema Solar e é diferente de tudo já visto em nosso quintal cósmico, disseram astrônomos nesta segunda-feira.

O cometa 3I/ATLAS é apenas o terceiro visitante de fora do nosso Sistema Solar que a humanidade já observou, e o seu brilho incomum oferece aos cientistas uma oportunidade sem precedentes de estudar algo que veio de outras partes da galáxia.

Depois de ser avistada em julho do ano passado, a rocha espacial gerou entusiasmo online, com um proeminente pesquisador de Harvard especulando que poderia ser uma espaçonave alienígena – uma teoria que a Nasa derrubou.

Agora, as observações realizadas pelos telescópios mais poderosos do mundo estão a revelar mais sobre este cometa único. De acordo com um novo estudo publicado na revista Nature, o 3I/ATLAS pode ter até 12 mil milhões de anos. Acredita-se que o nosso Sistema Solar se formou há cerca de 4,5 mil milhões de anos.

O principal autor do estudo, Martin Cordiner, do Goddard Space Flight Center da Nasa, disse que “talvez seja o objeto mais antigo já observado em nosso Sistema Solar”. No entanto, poderá haver “cenários extremos” que ofereçam outras explicações para a composição química incomum do cometa, acrescentou.

A nova pesquisa baseia-se na proporção de elementos químicos chamados isótopos do cometa detectados pelo telescópio espacial James Webb e pelo observatório ALMA no Chile.

Estas medições “revelam uma composição elementar diferente de qualquer corpo do Sistema Solar”, afirma o estudo.

Relíquia do ‘meio-dia cósmico’?

Comparado aos cometas do nosso Sistema Solar, o 3I/ATLAS tinha cerca de 30 vezes mais deutério, um tipo de hidrogênio comumente visto em água pesada, de acordo com um comunicado da Nasa. “Essa grande abundância de água pesada só pode realmente acontecer, de acordo com a nossa compreensão da astroquímica, num ambiente muito frio”, explicou Cordiner.

Isto significa que o cometa também está provavelmente entre os objetos mais frios já vistos no nosso Sistema Solar, a evidência isotópica sugere que se formou num ambiente com temperaturas negativas de 243 graus Celsius.

Exatamente de onde este cometa veio da Via Láctea permanece um mistério.

Mas pensa-se que estes objetos interestelares se formam de forma semelhante aos cometas do nosso Sistema Solar – sendo lançados durante a formação violenta de um novo planeta.

Livre de qualquer estrela, o 3I/ATLAS provavelmente passou bilhões de anos em “vastas trajetórias inimagináveis ​​ao redor da nossa galáxia”, disse Cordiner. Os cientistas também detectaram uma estranha falta de enriquecimento químico no cometa, o que sugere que ele se formou relativamente perto do nascimento das estrelas.

Poderia até ser uma “relíquia” de uma era chamada “meio-dia cósmico”, quando muitas estrelas se formavam há cerca de 10 mil milhões de anos, disse Cordiner. Os objetos interestelares anteriores — 1I/’Oumuamua, que foi avistado em 2017, seguido por 2I/Borisov em 2019 — não eram brilhantes o suficiente para reunir evidências isotópicas.

O professor de Harvard Avi Loeb, que já havia gerado polêmica ao sugerir que ‘Oumuamua poderia ser uma espaçonave alienígena, fez sugestões semelhantes sobre o 3I/ATLAS.

No entanto, a NASA descartou esta possibilidade. O Instituto de Busca por Inteligência Extraterrestre (SETI) disse no mês passado que não encontrou “nenhuma evidência de tecnologia extraterrestre” no cometa. Steve Croft, pesquisador da Universidade de Oxford da Breakthrough Listen Initiative do SETI, disse que todas as observações do cometa “são consistentes com o fato de ser um objeto astrofísico natural”.

Publicado em Dawn, 23 de junho de 2026

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