A lista de entrevistas de poucas pessoas no ano passado inclui Neymar, Robert Lewandowski, Xavi Hernández e Iker Casillas. Mas poucos entrevistadores têm o poder de atração de Romário. Trinta e dois anos depois de o ex-atacante brasileiro ter sido coroado campeão mundial e melhor jogador da Copa do Mundo de 1994, ele está viajando por toda parte para conversar com grandes nomes do futebol em seu canal no YouTube.
Romário iniciou seu projeto “cara a cara com o homem” há um ano. “Essa coisa toda da Romário TV é uma situação totalmente nova na minha vida”, diz ele. “Estou muito feliz, gostando, é muito legal.
“É definitivamente uma forma de me reconectar com meu passado. Parei de atuar em 2006. Esse papel de entrevistador me leva de volta a momentos que vivi, principalmente quando entrevisto pessoas da minha geração. Essa é talvez uma das razões mais importantes pelas quais estou gostando do que faço agora.”
Romário é um dos maiores jogadores não só do futebol brasileiro, mas do futebol mundial, e não tem vergonha de dizer isso. “Considero-me um dos cinco maiores jogadores de todos os tempos”, diz ele com a confiança característica.
Questionado sobre quem mais está em sua lista, ele aponta os seis primeiros. “Pelé, Maradona, Messi, Cristiano Ronaldo, eu e Ronaldo. É isso. Eu me daria nota 11 de 10 como jogador.”
A classificação 11 também remete ao número que ele usou nos primeiros e últimos anos de sua carreira no clube e na maioria de suas 71 partidas pelo Brasil, inclusive na Copa do Mundo de 1994. Nunca foi um grande fã de treinar ou de se esforçar muito, foi criticado pelo seu comportamento, mas defende-se com força.
“Romário era preguiçoso”, diz, repetindo uma acusação habitual. “O Romário não treinou como muita gente achava que eu deveria treinar, mas fiz gols.
“Eu era uma força a ser reconhecida em campo e estragar o resto. Eles tiveram que me aturar. Quem não gostou teve que aturar.”
A época de Romário foi muito diferente. Era um mundo sem redes sociais, o que lhe permitia ter uma vida agitada fora do campo, sem ser gravado ou pressionado pela torcida. Romário nunca escondeu sua paixão pela vida noturna e se jogasse hoje teria que se comportar de forma diferente, mas também poderia receber mais reconhecimento por suas conquistas em campo.
Romário em ação pelo Barcelona durante jogo da Liga dos Campeões contra o Manchester United, em Old Trafford, em outubro de 1994. Fotografia: Chris Cole/Getty Images
“Eu teria gostado das redes sociais na minha geração. Tenho certeza que teria desejado isso na minha época. A internet realmente mostra quem você realmente é. No futebol, por exemplo, talvez 50% do Brasil não tivesse acesso aos meus jogos e não soubesse o quanto eu jogava futebol. Hoje todo mundo sabe de tudo.
“Mas há o outro lado. As pessoas não sabiam das merdas estúpidas que eu fiz. Isso teria sido um pesadelo, mas faz parte da vida. Se a mídia social existisse na minha época, provavelmente eu também não teria feito tanta merda. Mas o pouco que fiz, as pessoas saberiam.”
Romário está sorrindo. Sua personalidade provocativa o catapultou depois do futebol para a política, carreira na qual está comprometido ao lado de sua vida de YouTuber. Ele começou há 16 anos no PSB, o partido socialista do Brasil, e foi eleito deputado federal em 2010 e senador em 2014.
Em 2017, mudou-se para o partido centrista Podemos e quatro anos depois, na onda de populismo do então presidente Jair Bolsonaro, aceitou um convite para ingressar no PL, o partido de extrema direita no poder na época. Ao contrário de Bolsonaro, que está em prisão domiciliária por tentativa de golpe de Estado, Romário opõe-se à liberalização da posse de armas. Ele pressiona por um maior investimento na educação, o que não é uma prioridade para o PL.
“Meu foco está na educação, saúde, questões sociais e esporte”, diz ele. “Luto pelas pessoas com deficiência, pela inclusão das pessoas. Não pressiono ninguém para assinar meu projeto em troca de algo, como legalizar as drogas. Legalizar o aborto? Não vou assinar isso. Armar o país? Não vou assinar isso. Só assino projetos que acredito serem bons.”
Então, como ele se avaliaria como político? Outros 11, diz ele.
A trajetória independente de Romário na política, com suas mudanças de partido e sua recusa em seguir os limites, atraiu críticas de ambos os lados. As eleições presidenciais estão marcadas para outubro, com Luiz Inácio Lula da Silva, buscando a reeleição, e Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro que herdou o cargo de candidato do PL com o pai inelegível, os favoritos.
Romário espera que a equipe de Carlo Ancelotti consiga primeiro vencer a sexta Copa do Mundo do Brasil e devolver o país a dias mais pacíficos. “Estamos numa situação muito semelhante à de 1994”, diz ele. “Politicamente falando, o país está uma bagunça. Há uma polarização entre esquerda e direita e a violência é muito alta.
Romário fala em sua atuação como senador brasileiro em maio de 2016. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters
“Há muitas notícias negativas em todas as partes do país. Digo isso por experiência própria porque vivi isso: uma vitória do Brasil traria alívio e alegria ao nosso povo que está sofrendo. Tenho certeza de que aliviará as tensões no país. O título da Copa do Mundo traz esperança de dias melhores, esperança de coisas boas. Espero realmente que o Brasil ganhe a Copa do Mundo, mas vai ser muito difícil.”
O pessimismo de Romário em relação às chances do Brasil decorre mais do desempenho dos jogadores pela Seleção do que da qualidade do elenco, embora ele sinta que o país não produziu grandes nomes como fez em sua passagem por Ronaldo e Ronaldinho e antes disso com Zico e muitos outros.
“O Brasil tem jogadores que têm um bom desempenho em seus clubes. Eles jogam muito bem na Premier League e na La Liga. Eles são ídolos em seus times. Mas quando vestem a camisa do Brasil, eles não conseguem cumprir. Espero que isso tenha ficado para trás agora e que possam ter pelo menos 80% do nível que mostram em seus clubes. Se conseguirem fazer isso, o Brasil terá uma chance de ganhar o título.”
Romário acredita que a falta de jogadores “espetaculares” aumentou sua popularidade. “Acho que me tornei ainda mais importante do que era antes. Anos atrás você tinha o Romário, você tinha o Ronaldo, mas hoje não tem ninguém.
“Por isso continuamos importantes. Temos esse grande significado dentro do futebol brasileiro porque na nossa época conquistamos e representamos (o país). Infelizmente, hoje, ninguém mais representa.”
Romário diz que há cinco seleções melhores que o Brasil, mas a Inglaterra não está entre elas. “O Brasil tem estatura e a camisa do Brasil carrega um peso que as pessoas respeitam muito. A Inglaterra é um bom time, mas vejo os outros times melhores.
“Gosto de Harry Kane, (Jude) Bellingham e (Bukayo) Saka. Eles são jogadores inteligentes, com ótima técnica, que fazem a diferença. Eles podem causar um certo rebuliço, mas eu não os colocaria entre os favoritos. Meus favoritos são França, Espanha, Portugal, Argentina, Alemanha e Brasil.”
O “baixinho”, como é conhecido Romário, deve sua vida ao futebol, mas não é um grande fã do jogo como espectador. Ele geralmente prefere um dia na praia a uma tarde assistindo a jogos, mas abre exceções para o Brasil e a Premier League, onde Pep Guardiola, ex-companheiro de Barcelona, empatou.
Ladeado pelos companheiros Branco e Dunga, Romário beija a Copa do Mundo após vitória sobre a Itália na final de 1994, em Los Angeles. Fotografia: Timothy Clary/AFP/Getty Images
“Pep sempre foi um homem com uma inteligência muito diferente para um jogador. Tanto que, mesmo sendo o mais jovem de um time de estrelas como (Hristo) Stoichkov, (José Mari) Bakero, (Ronald) Koeman e (Miguel Ángel) Nadal, ele realmente se destacou. Ele sabia ditar o jogo.
“(Johan) Cruyff tinha muita fé nele. Pep era um rapaz que prestava muita atenção às palestras de Cruyff. Ele estava sempre focado no treinamento. Ele levou isso para sua carreira de treinador e é por isso que ele é o melhor. Ele está entre os dois ou três melhores de todos os tempos.
“Ele dizia que quando eu estava no camarim, se eu estivesse de cabeça baixa e quieto, ia ser um dia ruim. Mas se eu estivesse animado, dançando, ninguém poderia me impedir. Todo mundo tem dias em que as coisas simplesmente não acontecem como querem. Para mim não foi diferente, mas esses dias eram raros.”
Antes de sair, Romário assume o controle da conversa e se entrevista naquela que afirma ser a “maior entrevista de todos os tempos”.
“Romário, como você conseguiu jogar tanto e se esforçar tão pouco?” ele pergunta. “Os outros estavam dormindo e você estava na rua. Os outros estavam comendo e você estava chupando picolés na praia. Como você fez isso?
“Agora vai responder o Romário… Sempre tive muita fé em mim mesmo, tinha certeza de que se tivesse seguido o caminho de ser atleta não teria chegado onde cheguei.
“Nasci no Jacarezinho, fui morar na Vila da Penha. Jogava descalço. Machucava muito a ponta do pé. Tinha que jogar futebol do jeito que me sentisse confortável, do jeito que me sentisse feliz. Por isso eu era assim.”