Estou viajando para os Estados Unidos esta semana para assistir a alguns jogos da Seleção na Copa do Mundo. Continuarei meu tratamento diário para me recuperar da lesão no joelho que sofri em março e, durante essa rotina, tentarei vivenciar a competição de uma forma diferente. Enquanto Rodrygo, menino de Osasco (cidade paulista), reconhece o privilégio que isso representa, o jogador Rodrygo, que participou de todo o ciclo das eliminatórias, da Copa América e de outras partidas, tem sentimentos difíceis de explicar.
Desde o nosso último jogo na Copa do Mundo de 2022, quando o goleiro croata Dominik Livakovic defendeu meu pênalti e fomos eliminados nas quartas de final, voltar ao torneio vestindo a camisa da seleção nacional tem sido um desejo que dominou meus pensamentos em muitas noites.
O caminho que percorremos nestes últimos quatro anos não foi fácil. Todos nós – jogadores, treinadores, comissão técnica, funcionários da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e, claro, torcedores – enfrentamos inúmeros desafios. Portanto, sofrer uma lesão que me excluiu do torneio poucos meses antes do anúncio da convocação foi um grande golpe, tirando de mim um sonho ao qual dediquei minha vida.
Dominik Livakovic, da Croácia, defendeu o pênalti de Rodrygo em 2022 e tirou o Brasil da Copa do Mundo de 2022. Fotografia: Matthew Childs/Reuters
A lesão – e saber a sua extensão através dos exames – trouxe imensa tristeza. A semana da cirurgia propriamente dita me trouxe sofrimento, noites sem dormir, muita dor e vontade de vomitar e desmaiar. Mas logo veio uma força interior, uma certeza de que a vida continua e que vou me recuperar e continuar perseguindo meu sonho de Copa do Mundo.
Além disso, um dos piores dias da minha vida se transformou em uma enorme onda de apoio de tantas pessoas. Minha fé também me fortaleceu, assim como a presença incondicional de minha família e as inúmeras mensagens e conversas com pessoas importantes em minha vida. Houve um apoio incrível do Real Madrid, apelos da CBF, da comissão técnica e dos jogadores. Tenho certeza que voltarei mais forte, me dedicando como sempre fiz para alcançar meus objetivos.
Não poder jogar na parte final da temporada do Real Madrid e não disputar a Copa do Mundo pela Seleção é um sentimento impossível de explicar. Assistir aos jogos cruciais do Real Madrid na TV sem poder entrar em campo e dar tudo pelo clube deixou um gosto amargo. E assistir ao anúncio da seleção para a Copa do Mundo sem a expectativa de ouvir meu nome ser chamado por Carlo Ancelotti foi difícil.
Rodrygo desempenhou um papel importante na progressão do Brasil para a Copa do Mundo durante as eliminatórias. Fotografia: Silvia Izquierdo/AP
Por outro lado, a alegria que senti vestindo as camisas do Real Madrid e do Brasil também é impossível de expressar em palavras. Mesmo com esse revés, acredito que ainda tenho experiências incríveis pela frente e que mais uma vez poderei levar alegria a quem me apoia, seja pelo clube ou pela seleção. Tenho apenas 25 anos e ainda tenho muitos sonhos importantes a realizar. E sei que, para isso, preciso ser forte, como sempre fui em outros momentos decisivos da minha vida.
A Seleção Brasileira é sinônimo de orgulho. Tenho orgulho de ser brasileiro e de sempre apoiar uma equipe que representa nossa cultura como algo lindo, mágico, alegre, unido e trabalhador. Vestir a camisa da Seleção Brasileira é uma sensação difícil de descrever.
É um orgulho que vem do menino de Osasco que vestiu uma camisa réplica e sonhava ser jogador profissional. E um sonho, quando vivido em realidade, acaba sendo compartilhado com todos que fazem parte da minha vida e que gostam de mim: família, amigos, time ao meu redor, torcedores e companheiros.
Meu primeiro jogo pela seleção em um estádio foi como torcedor, o Brasil vencendo o Paraguai nas eliminatórias da Copa do Mundo, na Arena Corinthians, no dia 28 de março de 2017 (gols de Neymar, Coutinho e Marcelo). Anteriormente, não tínhamos condições de ir a um jogo da seleção nacional. Fui com meu pai e o clima era muito especial, uma energia diferente, com todos os torcedores do clube torcendo pelo mesmo time. É um momento em que todos partilhamos as mesmas cores.
O recorde de cinco vitórias do Brasil em Copas do Mundo é motivo de grande orgulho para os torcedores de futebol do país. Fotografia: Rebekah Wynkoop/SPP/Shutterstock
Quando chegou a hora de vestir a camisa, pude sentir o carinho da torcida – e isso me fez voltar no tempo e relembrar as sensações que tive ao assistir o time pela TV. Sempre queremos ver a seleção ganhar títulos, mas percebi que o amor das pessoas pela seleção não depende só disso. As pessoas querem fazer parte, receber um aceno, uma foto, um abraço. Eles querem ver o ônibus passando e mostrar que estão juntos. Todo o Brasil quer a Seleção em sua cidade. Sempre tive uma recepção muito bonita em Belém, Brasília, Cuiabá, São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro… não importa a região.
Estou indo para os EUA para acompanhar a equipe de perto e quem sabe encontrar meus companheiros e staff para trazer energia positiva. Acima de tudo, vou como torcedor da seleção brasileira. Quando o jogo começar, ficarei nervoso, concentrado no jogo, observando os padrões de jogo e querendo que o Brasil faça gols. E, quando marcarem, será um misto de alegria e alívio porque sei que o país inteiro espera que a Seleção vença o torneio inteiro.
A Copa do Mundo envolve muito mais do que apenas o que acontece em campo. Exige concentração total, dedicação diária, colaboração antes, durante e depois dos jogos e apoio de todos os envolvidos. E tenho certeza que a Seleção possui todos os elementos desse pacote. Acima de tudo, confiamos em Ancelotti.
Toda a comunidade do futebol conhece a sua história de conquista de títulos mas quero sublinhar que este grupo de jogadores também pode contar com o Ancelotti, o ser humano, alguém que me ajudou quando enfrentei enormes desafios e que me apoiou nos momentos mais difíceis. Ele é um cara especial. Ele sabe liderar no difícil ambiente do futebol de elite e sabe o que está fazendo no comando da Seleção. Que comece a Copa do Mundo.