Fundação Cacique Cobra Coral suspende ajuda climática à Argentina após críticas de Milei
Entidade afirma que interrompeu a parceria mantida com a Argentina desde a Guerra das Malvinas e diz que retomada depende de pedido de desculpas de Javier Milei
A Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC) anunciou a suspensão da chamada “assistência climática” que, segundo a própria entidade, era oferecida à Argentina desde a Guerra das Malvinas, em 1982. A decisão foi atribuída às recentes declarações do presidente argentino, Javier Milei, contra o Brasil e o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Em comunicado divulgado nesta semana, a fundação afirmou que a Argentina ficará “por sua conta e risco” enquanto a assistência estiver suspensa. Segundo a entidade, a retomada da parceria dependeria de um pedido formal de desculpas ao Brasil pelas declarações de Milei.
A decisão ocorre em meio a uma nova escalada da tensão política entre Brasil e Argentina. Durante uma passagem por São Paulo, Milei fez críticas contundentes ao presidente Lula e ao governo brasileiro. O episódio levou o governo do Brasil a convocar seu embaixador em Buenos Aires para consultas, em uma nova demonstração do desgaste diplomático entre os dois países.
Por que a Fundação Cacique Cobra Coral suspendeu a ajuda à Argentina?
De acordo com a Fundação Cacique Cobra Coral, a suspensão foi uma resposta direta às declarações recentes de Javier Milei contra o Brasil.
A instituição afirma manter uma atuação voltada para supostas intervenções nas condições atmosféricas e diz ter prestado assistência a diferentes governos e instituições ao longo de décadas. No caso argentino, a fundação afirma que a parceria começou durante a Guerra das Malvinas.
A entidade não apresentou, porém, evidências científicas que demonstrem que suas atividades sejam capazes de controlar ou modificar o clima.
A decisão de interromper a assistência ganhou repercussão justamente por ocorrer em um momento de atenção às condições climáticas da América do Sul e ao desenvolvimento do El Niño.
Argentina ficará “por sua conta e risco”, afirma entidade
A Fundação Cacique Cobra Coral afirmou que a Argentina ficará “por sua conta e risco” enquanto o atendimento estiver suspenso.
A entidade também vinculou a decisão ao período de atuação do El Niño, fenômeno climático que pode alterar padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões.
O comunicado chamou atenção pela forma como misturou a disputa diplomática entre Brasil e Argentina com uma suposta atuação climática da fundação.
É importante, entretanto, separar a declaração da instituição do conhecimento científico estabelecido sobre o clima.
O que a ciência diz sobre o El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático real e amplamente estudado, relacionado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e às consequentes mudanças na circulação atmosférica.
No Brasil, órgãos como INMET, INPE e CEMADEN monitoram o fenômeno e seus possíveis impactos.
O primeiro boletim oficial do Painel El Niño 2026-2027 confirmou a configuração do fenômeno e apontou alta probabilidade de sua permanência até pelo menos o início de 2027. Os modelos também indicaram possibilidade de um episódio muito forte durante a primavera e o verão de 2026.
Segundo o INMET, o El Niño tende a favorecer chuvas mais frequentes e volumosas no Sul do Brasil, enquanto pode contribuir para redução das precipitações em áreas do Norte e Nordeste.
Fundação afirma atuar sobre condições atmosféricas
A Fundação Cacique Cobra Coral afirma que foi criada para “intervir nos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza”. A instituição está ligada à médium Adelaide Scritori, que afirma incorporar o espírito denominado Cacique Cobra Coral.
A fundação mantém em seus próprios canais relatos de supostas intervenções climáticas no Brasil e no exterior.
Em outras ocasiões, a instituição também afirmou ter prestado assistência climática a outros países. Em 2025, por exemplo, anunciou a suspensão de uma suposta assistência aos Estados Unidos após a política tarifária do governo de Donald Trump.
Essas alegações, no entanto, não devem ser confundidas com previsões meteorológicas ou mecanismos climáticos reconhecidos pela ciência.
Crise entre Brasil e Argentina aumenta após declarações de Milei
O anúncio da fundação acontece em um cenário de deterioração das relações entre os governos brasileiro e argentino.
Milei esteve em São Paulo para participar de um evento político e apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Na ocasião, o presidente argentino voltou a fazer críticas ao governo Lula e às instituições brasileiras.
A crise ganhou dimensão diplomática depois que o governo brasileiro decidiu convocar seu embaixador em Buenos Aires para consultas.
A medida demonstra que a relação entre os dois países atravessa um dos momentos mais delicados desde a chegada de Milei à Presidência da Argentina.
Lula minimizou críticas feitas pelo presidente argentino
As declarações de Milei também provocaram reação no Brasil.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva minimizou inicialmente as críticas feitas pelo argentino e questionou a relevância das declarações durante conversa com jornalistas.
Ao mesmo tempo, integrantes do governo brasileiro criticaram publicamente o comportamento do presidente argentino.
A tensão política entre os dois governos já vinha se acumulando desde o início do mandato de Milei, que mantém posições ideológicas bastante diferentes das adotadas pelo governo Lula.
El Niño já influencia o clima na América do Sul
Independentemente da decisão anunciada pela Fundação Cacique Cobra Coral, o El Niño já é acompanhado pelas autoridades meteorológicas.
O INMET informou em julho que o fenômeno começou a influenciar os padrões de chuva na Região Sul do Brasil. O órgão destacou que o aquecimento das águas do Pacífico altera a circulação atmosférica e pode aumentar a frequência e o volume das precipitações no Sul.
O CEMADEN também alertou para possíveis impactos do fenômeno em diferentes regiões brasileiras, incluindo maior risco de chuvas extremas, deslizamentos e enchentes no Sul e condições de seca e incêndios em áreas do Norte e Nordeste.
Na Argentina, os efeitos do El Niño também são acompanhados por centros meteorológicos e instituições científicas, que utilizam modelos climáticos e observações atmosféricas e oceânicas.
A Fundação Cacique Cobra Coral realmente controla o clima?
Não há evidência científica estabelecida de que a Fundação Cacique Cobra Coral ou uma entidade espiritual consiga controlar o clima de um país ou alterar fenômenos meteorológicos de grande escala.
A própria fundação apresenta sua atuação como uma combinação de espiritualidade e supostos conhecimentos científicos. Em publicações anteriores, a instituição afirmou que suas operações envolveriam mudanças nas condições atmosféricas.
A meteorologia moderna, por outro lado, explica fenômenos como o El Niño por meio da interação entre oceanos, atmosfera, circulação de ventos e temperatura da superfície do mar.
Por isso, a expressão “assistência climática” deve ser entendida, neste caso, como a forma utilizada pela própria Fundação Cacique Cobra Coral para descrever seu trabalho, e não como um serviço meteorológico reconhecido cientificamente.
Suspensão ocorre em meio a cenário climático importante
A decisão da fundação acontece justamente quando o El Niño 2026-2027 começa a ganhar força.
Segundo o Painel El Niño coordenado por instituições oficiais brasileiras, existe alta probabilidade de permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027. A previsão também aponta possíveis impactos regionais sobre chuvas, temperaturas, agricultura, recursos hídricos e risco de incêndios.
Isso aumenta o interesse sobre qualquer declaração relacionada ao clima na América do Sul, mas não significa que a suspensão anunciada pela fundação tenha capacidade de modificar a evolução do El Niño.
O que pode acontecer agora?
Segundo a Fundação Cacique Cobra Coral, a assistência à Argentina permanecerá suspensa até que haja um pedido formal de desculpas ao Brasil.
Enquanto isso, o acompanhamento das condições climáticas continuará sendo realizado por instituições meteorológicas e científicas responsáveis pelo monitoramento do El Niño e de seus possíveis efeitos.
O episódio, portanto, une dois assuntos distintos que ganharam destaque simultaneamente: a crise diplomática entre Javier Milei e o governo Lula e a atuação alegada pela Fundação Cacique Cobra Coral no campo climático.
A suspensão anunciada pela entidade tem forte componente político e simbólico, mas as condições meteorológicas da Argentina continuarão sendo determinadas por fenômenos atmosféricos e oceânicos naturais, independentemente da decisão da fundação.
Entenda em resumo
- A Fundação Cacique Cobra Coral anunciou a suspensão da chamada “assistência climática” à Argentina.
- A entidade afirma que a parceria com o país existe desde a Guerra das Malvinas, em 1982.
- A decisão foi atribuída às recentes críticas de Javier Milei ao Brasil e ao presidente Lula.
- A fundação condicionou a retomada da assistência a um pedido formal de desculpas.
- A instituição afirma atuar sobre condições atmosféricas, mas essa capacidade não é reconhecida pela ciência.
- O El Niño 2026-2027 já está sendo monitorado por órgãos meteorológicos oficiais.
- O fenômeno pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões da América do Sul.