Tendências culturais e tecnologia ameaçam a contemplação, diz o Cardeal Roche.

Tendências culturais e tecnologia ameaçam a contemplação, diz o Cardeal Roche.

As influências culturais modernas, incluindo a tecnologia e as mudanças nas concepções de identidade, representam um risco para o enfraquecimento das relações humanas e do desenvolvimento espiritual, afirmou o Cardeal Arthur Roche, prefeito do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.

Em uma entrevista abrangente concedida à OSV News em seu escritório no Vaticano, em 17 de março, o Cardeal Roche disse que, embora haja um crescente interesse pela fé entre os jovens, especialmente os rapazes, também existem aspectos culturais que prejudicam as relações humanas e o desenvolvimento espiritual, particularmente o papel da tecnologia.

“Eu sempre dizia, como bispo — e estou convencido disso —, que as crianças têm uma imensa capacidade de contemplação”, afirmou. “E quando se substitui a liturgia da Igreja pelo entretenimento, está-se tirando, na verdade envenenando, a capacidade contemplativa da criança de crescer.”

O cardeal lembrou-se de ter ido a um restaurante com amigos quando notou um jovem casal com uma filhinha, todos usando seus celulares.

“O pai estava constantemente conversando com as pessoas; a esposa, sem dúvida, assistia a uma série; e a filha estava jogando”, disse ele. “Nenhum deles estava no mesmo nível, seja em termos de entretenimento ou conversa. E eu pensei: ‘Quanto tempo isso vai durar?’”.

“É evidente que as únicas palavras que eles pronunciavam eram ‘espaguete à carbonara’ e ‘pizza’. Só isso”, acrescentou.

–Visões distorcidas da identidade humana–

O Cardeal Roche também abordou debates mais amplos sobre identidade e antropologia humana, e alertou contra o que descreveu como compreensões distorcidas de masculinidade e gênero que estão surgindo na cultura contemporânea.

“Acho que uma das coisas que me interessa muito é todo o debate sobre gênero, que é fruto do feminismo: toda a desconstrução da diferença entre o masculino e o feminino”, disse ele. “De repente, isso se voltou contra o movimento feminista; é quase como se o movimento feminista estivesse se autodestruindo, se consumindo com sua própria trajetória.”

“Acho que essas trajetórias de masculinidade ou feminilidade exageradas são sempre muito perigosas porque lhes falta o elemento social para o qual fomos feitos, como parceiros complementares na vida”, disse o Cardeal Roche à OSV News.

Ampliando sua preocupação com a perda da complementaridade social, o Cardeal Roche afirmou que essas tendências também se refletem na forma como a sociedade aborda questões de identidade, particularmente em decisões que afetam crianças.

“Graças a Deus que agora existem médicos dizendo: ‘Não vou administrar hormônios ao seu filho para mudar sua sexualidade ou tentar alterá-la com cirurgia’”, disse ele. “Mutilar uma criança é tão grave para mim quanto a pedofilia; é a mesma coisa.”

“Isso tira a liberdade da criança; em última análise, controla a criança de tal forma”, concluiu. “Quando um menino brinca com uma boneca, isso não significa que a criança seja uma menina. Crianças não são sexuais dessa forma, então não tem a mesma importância. Mas interpretar isso como uma indicação de que a criança está no corpo errado, o que é isso? O que é isso?”

Em resposta, o Cardeal Roche apontou para a teologia do corpo desenvolvida por São João Paulo II como um recurso fundamental.

“Está tudo lá”, disse ele, descrevendo-a como um “depósito da fé”.

–O pontificado do Papa Leão XIV e a busca pela paz–

Refletindo sobre o papado do Papa Leão XIV, o Cardeal Roche disse à OSV News que o papa, que se aproxima do seu primeiro aniversário como pontífice, deixou sua missão muito clara desde o início.

“As primeiras palavras que ele pronunciou — ‘A paz esteja convosco’ — creio que esse é o seu objetivo principal”, disse o cardeal. “E parte dessa paz seria construir pontes, ou ‘pontifex’”.

O Cardeal Roche descreveu o Papa Leão XIII como um líder marcado pela continuidade com seus antecessores, mas também pela coragem pessoal, particularmente diante das crescentes tensões globais.

Embora tenha observado que os ensinamentos do Papa se consolidarão com o tempo, o Cardeal Roche afirmou que o atual clima geopolítico é um momento decisivo.

“Sua coragem agora, diante de uma possível ameaça — uma terrível ameaça de guerra mundial — mostra que ele é um homem de coragem”, disse o cardeal.

Ele acrescentou que essa liderança está enraizada no passado do Papa, lembrando como, quando jovem padre no Peru, ele protegeu seminaristas do recrutamento forçado por grupos armados.

“Ele é muito bem formado; ele é sólido”, disse o Cardeal Roche, mencionando a experiência do Papa como bispo missionário e líder da Ordem Agostiniana.

No entanto, em um mundo que enfrenta a ameaça de conflitos, ele ressaltou o papel da Igreja como uma força espiritual para a paz.

“A Eucaristia é a fonte de tudo o que fazemos; é o ápice ao qual também retornamos”, disse o Cardeal Roche, observando que, na época da Roma Antiga, a “assinatura” dos primeiros cristãos era: “Vejam como eles se amam”.

“Isso era extraordinário”, disse o cardeal à OSV News. “Sem intrigas; não havia competição. Eles encaravam as coisas dentro do contexto de… não de um isolado ‘É assim que eu quero’”.

“É assim que fazemos”, disse ele, “mas dentro da comunidade. É assim que vivemos. É assim que nos apoiamos mutuamente. É assim que nos corrigimos uns aos outros”, explicou.

Sobre o papel da Igreja na promoção da paz, o Cardeal Roche enfatizou que sua missão está fundamentada na Eucaristia e no testemunho cristão vivido, e não no poder político.

A diplomacia da Igreja Católica, acrescentou, está enraizada na abertura e no encontro, observando que o Papa recebe todos os líderes porque “seu trabalho é pregar Cristo”.

Em vez de buscar a dominação, o Cardeal Roche disse à OSV News que a Igreja Católica atua como uma força silenciosa de transformação.

“Nunca fomos descritos como a maioria”, disse ele. “Apenas o fermento na massa.”

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