As grandes estrelas apareceram para a Copa do Mundo de 2026. Lamine Yamal voltou à seleção espanhola para ajudá-los a derrotar a Arábia Saudita. Lionel Messi é o artilheiro do torneio, dando à Argentina esperança de fixar “la cuarta estrella” em suas camisas. E Kylian Mbappé, Erling Haaland, Harry Kane e Cristiano Ronaldo estão todos disputando a Chuteira de Ouro enquanto suas equipes avançam para a próxima fase.
Porém, o pentacampeão Brasil não consegue convencer. Eles terminaram em quinto lugar na tabela de qualificação da Conmebol com 28 pontos em 18 jogos, sua pior campanha nas eliminatórias. Ser competitivo na derrota por 2-1 para a França em Março, antes das vitórias sobre Croácia, Panamá e Egipto em amigáveis, talvez tenha dado falsas esperanças.
O Brasil teve a sorte de empatar em 1 a 1 com o Marrocos no jogo de estreia, depois de ficar atrás no início e ser derrotado na maior parte da partida. Apenas Vinícius Júnior os salvou com um momento de brilhantismo individual.
Qualquer coisa menos do que uma goleada (goleada unilateral e com muitos gols) contra o Haiti teria sido considerada um fracasso. Essa foi a mensagem de casa. Casemiro respondeu sarcasticamente com uma careta sarcástica e desviou o olhar enquanto balia “3-0?”, quando questionado se a sua equipa tinha convencido no segundo jogo. Vencer um país que se classificou para a Copa do Mundo pela primeira vez em 52 anos não vai conquistar a todos.
O Brasil não foi particularmente impressionante no segundo tempo sem gols, fazendo pouco para acalmar os sentimentos de “apreensão e desconfiança” que Mauro Cezar Pereira – um dos maiores especialistas do país – captou no Brasil. “Quem entende até o básico do futebol não tem muita fé”, afirma, acrescentando que o trabalho de Carlo Ancelotti está “muito aquém do que deveria ser”.
Paulo Vinícius Coelho, outro peso pesado da crítica brasileira conhecido como PVC, diz que os brasileiros “sentem que estamos vendo um time que não dá muitos sinais de fazer uma grande Copa do Mundo – e que para isso terão que melhorar durante o torneio”.
Grande parte dos grandes nomes se destacaram nesta Copa do Mundo e, com dois gols e uma assistência até o momento, Vini Jr pode ser lançado no grupo das elites de 2026. Mas ele não é de forma alguma a maior estrela da Seleção Brasileira em termos de reputação. A cobrança vai para o maior artilheiro de todos os tempos da seleção nacional, Neymar, que está na seleção, mas ainda não disputou um único minuto daquela que deverá ser sua última Copa do Mundo.
Vinícius Júnior comemora após marcar contra o Haiti. Fotografia: Shaun Botterill/FIFA/Getty Images
O drama sobre se o jogador de 34 anos seria convocado ou não era digno de novela da Globo. Certamente seria mais interessante que o Convocadas – o reality show sobre os jogadores e seus parceiros que a Globo exibiu na preparação para o torneio.
A saga de Neymar foi repleta de reviravoltas e teorias da conspiração. A ideia de que Santos e Neymar cometeram um suposto erro de arbitragem, onde seu número foi retido para ser substituído por não ter condições de continuar jogando uma partida do campeonato, enquadra-se nesta última categoria. O mesmo acontece com a história de que Ancelotti não queria convocá-lo, mas acabou cedendo para evitar uma possível reação por não fazê-lo.
De qualquer forma, ele está indo. O comentarista de TV Neto – que criticou Neymar por frequentar mais churrascarias do que atuou em jogos – diz que falta foco e preparo físico a Neymar. “Você vê o Messi lesionado com uma distensão na panturrilha, como o Neymar?”, questionou Neto em transmissão de seu programa Os Donos da Bola. “Não! Você consegue pensar em uma lesão muscular, uma entorse de tornozelo de Messi, uma entorse de joelho, problemas de próstata? Quando Messi ficou 10 dias sem treinar ou perdeu cinco jogos seguidos? Neymar, isso é tudo que eu quero de você. Só isso. Ele tem 39 anos, você tem 34. E o que Neymar faz? Uma festa de revelação de gênero.”
Pereira, conhecido crítico do atacante, segue linha semelhante. “Neymar nem deveria estar na seleção”, diz. “Ele não joga há 36 dias, depois de passar 30 sem tocar na bola. Ele não se destacou pelo Santos contra a Recoleta do Paraguai, como vai se destacar na Copa do Mundo?”
Apesar da falta de ação em campo, Neymar ainda domina o debate no Brasil. O Globo informa que o plano é que Neymar tenha alguns minutos contra a Escócia, mas apenas se o Brasil estiver em situação “favorável”. Dada a sua dispensa por lesão, há preocupações em colocá-lo para “resolver” o jogo “porque não tem condições físicas e ritmo para atingir o seu nível máximo”. A ideia é jogá-lo como falso nove, “para não ter tantas atribuições de marcação”.
Na preparação para o jogo contra a Escócia, circulou um clipe do campo de treinamento. Mostra Neymar entrando rápido e tirando a bola de seu Danilo, com Casemiro aplaudindo seus esforços em um clima geral de brincadeira. “Você vai mesmo em frente, hein”, vem um comentário e Neymar responde: “Não se acostuma, hein!”
Questionado sobre quantos minutos Neymar pode jogar contra a Escócia, Ancelotti respondeu: “Posso jogar 90 minutos caminhando. Neymar está bem, ele pode jogar, estou muito feliz com ele”. Após a falha de cabeça e o fraco desempenho contra o Marrocos, é improvável que Igor Thiago recupere seu lugar como alvo central, especialmente depois que Matheus Cunha marcou dois gols contra o Haiti.
Cunha pode jogar por cima ou como camisa 10, que vai fundo para que os dois pontas possam jogar como atacantes. Ancelotti usou esse sistema com grande efeito na temporada 2023-24, com Vini Jr e Rodrygo fornecendo largura e ajudando o Real Madrid a vencer a La Liga e a Liga dos Campeões. Rodrygo está ausente de todo o torneio e Raphinha sofreu uma lesão no tendão da coxa contra o Haiti, então alguns ajustes são necessários no ataque. Muitos fãs em casa gostariam que Endrick tivesse uma chance, mas Ancelotti não parece convencido pelo adolescente.
Matheus Cunha comemora com Vini Jr e Lucas Paquetá após gol contra o Haiti. Fotografia: Mauro Pimentel/AFP/Getty Images
A defesa melhorou contra o Haiti, sem sofrer golos, mas Casemiro e seus colegas meio-campistas foram criticados pela aparente falta de mobilidade. Ele pode ter vencido a Liga dos Campeões cinco vezes pelo Real Madrid e ter tido um bom desempenho pelo Manchester United nesta temporada, mas isso não significa um monte de feijão para os torcedores brasileiros que querem ver o velho cavalo de guerra “correr mais”.
Talvez ao perceber isso, Casemiro foi o jogador que mais correu contra o Haiti depois de ter sido o mais lento no sorteio do Marrocos. Mauro Cezar notou melhorias no meio do parque. “Inicialmente, o treinador pretendia montar a equipe no 4-2-4. Agora está no 4-3-3. De qualquer forma, o meio-campo melhorou no segundo jogo, com ajustes no posicionamento dos jogadores naquela área.
“Houve uma boa atuação de Lucas Paquetá, além de apoio constante e participação intensa de Matheus Cunha, que nunca deveria ter sido retirado do time para dar lugar a Igor Thiago, como aconteceu na partida de abertura.”
Seguindo em frente, o PVC acredita que existe uma solução. “O time melhorou um pouco com Paquetá, mas o Danilo, que está no banco, traria versatilidade ao meio-campo.” Dito isto, ele não é totalmente positivo. “O fato é que o Brasil desperdiçou quatro anos de trabalho”, acrescenta PVC. “A equipa não está preparada. A equipa tem bons jogadores, mas não tem uma unidade coesa”.
As expectativas em casa são baixas. O Brasil pode enfrentar o Japão ou a Holanda na próxima rodada, e depois, possivelmente, a Alemanha ou a França nas oitavas de final, dependendo dos resultados. Um confronto nas quartas de final com a Inglaterra também não pode ser descartado.
“Eles podem nem chegar às oitavas de final, terão que melhorar muito para avançar”, sugere Pereira. O PVC é mais positivo, embora cauteloso. “O Brasil pode melhorar na competição e tentar chegar às semifinais. Isso pode acontecer se os confrontos forem mais fáceis – por exemplo, se a Suécia vencer o Japão. Se Brasil e Holanda se enfrentarem, o Brasil poderá ser eliminado nas primeiras eliminatórias. Isso pode acontecer, por exemplo, se perder para a Escócia”, alerta.
Em qualquer caso, tal fracasso não custará o emprego de Ancelotti. Ele tem um “ciclo completo” até depois da Copa do Mundo de 2030 conforme seu contrato e, portanto, quatro anos completos para se preparar, incluindo a Copa América de 2028. O período de lua de mel acabou e ele já está sentindo o calor.
Este é um artigo de Tom Sanderson